Sonhos que se quebram
Sexta-feira, 20 de março de 2009, 23h40. Cais de Santa Rita, bairro do Recife. Ônibus: Guabiraba (Córrego do Jenipapo) Hoje conheci Dedeco. Não conhece Dedeco? Ele já jogou no Náutico, Central, Centro Limoerense, Potiguar-RN, Paulista-SP e em vários outros times. Foi o que ele me disse. E eu acredito nele. Conheço um mentiroso logo de cara e Dedeco não é um. – Ganhei nome, só não ganhei dinheiro – diz ele. Agora é garçom do restaurante Picanha do Gaúcho, em Boa Viagem. – Na moral, eu queria um emprego que eu largasse às 7 da noite. Essa hora quando eu chego em casa o “urso” já deu conta do recado – brinca ele. – Nem tenho folga dia de domingo – reclama. Ele me diz que é amigo de um monte de jogador. Fala os podres de todos eles. Me explica porque uns deram certo e outros não. Mas e ele? Por quê não virou profissional? – É muita sacanagem. Pagam pouco pra quem esta começando. Preferi arrumar um emprego normal e sustentar minha família – confessa, com tristeza. Futebol para Dedeco, hoje em dia, só nas peladas do Campo da União, no bairro da Macaxeira. – Nem sei mais finalizar. Ontem chutei uma bola que passou longe. Os caras disseram: ôxe, esse não o Dedeco que conheço. A parada na qual vou descer está próxima. Me despeço de Dedeco e, com um aperto de mão, lhe desejo boa sorte. Quer seja no campo ou no restaurante. – A gente só tem o que Deus nos dá. Só espero que ele não seja injusto comigo – confessa. Eu também espero. Queria, um dia, gritar um gol de Dedeco.
Escrito por Geraldo de Fraga às 01h22
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Eu, zumbi ( 2 )
Todos olhavam para mim. De cima para baixo. Ninguém sorria. - Quer beber alguma coisa? – ofereceu o dono da festa. - Não bebo – respondi. - Nem água? – perguntou, sorrindo. - Não. Ele me encarou, desconfiado. Só então percebi que era uma piada. - Não bebo nada. Nem água. Não preciso. Sou zumbi. Estou morto, tecnicamente – eu disse. Falei muito rápido. Eu estava nervoso. Não sei se ele entendeu o que eu disse. Acho que não. Enfim, ele foi embora. Deixaram de olhar pra mim. Estavam todos olhando pra o outro lado da sala. Seria outro zumbi? Não. Estavam sorrindo, agora. - Estudei com esse cara – comentei para uma menina que estava ao meu lado. - Me apresenta? – pediu ela. - Não sei seu nome. - Você acabou de dizer que conhecia ele. - Estou dizendo que não sei o seu nome – apontei para ela. Ela sorriu. Depois riu. E, em seguida, gargalhou. Só então percebi que era uma piada. Eu era a piada. Fui embora. Antes de sair, enchi os bolsos de salgadinhos e cuspi nos brigadeiros.
Escrito por Geraldo de Fraga às 22h09
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Eu, zumbi ( 1 )
A entrevista acontecia em uma sala pequena e abafada. O ar-condicionado estava quebrado e não havia janelas. - Você é mesmo um zumbi? – perguntou a repórter, assim que abriu o bloco de anotações. - Sim – respondi. - Prove – disse ela, erguendo a sobrancelha direita. - O que quer que eu faça? – perguntei. - Não sei. Se transforme em morcego – pediu ela. - Sou zumbi, não vampiro. - Ah, desculpa – disse ela, mordendo a caneta. – Você é sempre zumbi, ou só quando é lua cheia? - Sou sempre. Essa história de lua cheia é com os lobisomens – falei. - E bala de prata? - Também. - Você tem partes do corpo que foram de outras pessoas? - Esse o Frankenstein, eu acho – respondi. Ela me olhou dos pés a cabeça. Não escondia a semblante de frustração. - Não me leve a mal... mas o que faz um zumbi? - Nada – falei. – Um zumbi é só um zumbi. Ela se levantou, pegou sua bolsa e foi embora sem falar comigo. - Eu só morro se levar um tiro na cabeça – gritei, assim que ela saiu. De nada adiantou. Ela não voltou. Nunca mais a vi.
Escrito por Geraldo de Fraga às 22h38
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