O sacrifício dos gatos
Uma velha senhora que morava num casarão no centro do Recife costumava adotar todos os gatos sem donos da região. Qualquer felino que estivesse com fome, na chuva ou até mesmo doente no meio da rua, era acolhido por ela. Sabendo disso, até as pessoas que queriam se livrar de seus bichos de estimação jogavam os animais em sua casa. Mas ela nunca se importou. Tinha sempre um cantinho em seu lar para um novo gato. O antigo casarão era imenso. Com o passar dos anos, os bichos adotados iam se misturando aos filhotes que nasciam. Um mundo de gatos se formou, num pequeno pedaço de terra cercado por todos os lados pelo mundo dos humanos. Um dia, a velha senhora saiu de casa para fazer compras e demorou dois dias para voltar. Quando retornou, veio em companhia de uma mulher negra e dois homens vestidos de branco. Ela já não andava mais com as próprias pernas e sim com uma cadeira com rodas. Os gatos de assustaram, correram e se esconderam. Os dois homens foram embora, mas a mulher ficou. Com o passar dos dias, os gatos notaram que sua dona não mais se mexia. Além disso, perceberam que a mulher negra tomava conta dela. Tendo a certeza de quê a mulher não representava ameaça, eles começaram a deixar seus esconderijos. No início, a mulher se assustou, mas logo percebeu que os animais eram inofensivos. Vendo que estavam com fome, ela passou a alimentá-los. Também tinha simpatia por gatos. Mas mesmo voltando a comer e a retomar a vida dentro do casarão, os gatos estavam tristes. Não tinham mais sua dona como antigamente. Não tinham mais seus risos altos e suas carícias. Ela também não falava mais com eles. A mulher negra tentava conversar, mas eles não a entendiam. Sua voz soava estranho, como uma língua estrangeira que confundia os ouvidos. Era assim com todos os humanos, menos com a velha senhora. Então um dos gatos teve uma idéia. O preto, o maior de todos, o líder. Chamado de Ébano, por sua dona. Ele pediria autorização à Bast, Deusa dos gatos, e assim conseguiriam falar com a mulher negra. E lhe perguntariam o que houve com sua amada protetora. Naquela noite os gatos se reuniram no quintal e fizeram um grande círculo. Camundongos, baratas e filhotes de pardais foram oferecidos em sacrifícios, e então, a permissão foi concedida. Mas Ébano não havia só pedido para falar com ela e sim para que eles de alguma maneira pudessem recompensar todo o carinho que havia recebido naqueles anos. Bast achou justo e também consentiu tal poder para isso. A mulher negra estava sentada em uma cadeira de balanço, ao lado da cama onde dormia a velha senhora, quando os gatos chegaram. A mulher se assustou e ficou imobilizada na cadeira. Ébano então deu um passo a frente. “Boa noite, senhora de branco. Peço licença para falar”, disse ele. A mulher estava com medo, seus olhos não negavam. Mas não se desesperou por um instante. Talvez fosse pela calma que sua profissão exigia, que ela controlou-se. - Vocês falam? – Perguntou ela. - Com os humanos, só essa noite. Uma dádiva do nosso Deus. Conte-nos porquê nossa dona está assim. - Ela sofreu um derrame. É um tipo de doença. - Ela nos ouve agora, bela dama? - Não. Ela não ouve mais, não enxerga e nem fala. - Como pode alguém viver assim, bela dama? - Não pode, gato. É um inferno. - Seu Deus devia ser mais bondoso com seus filhos. Bast não faria isso conosco, ela nos deu sete vidas. O grande gato negro se aproximou ainda mais da mulher negra, mas dessa vez ela não se assustou. - Essa mulher foi a única humana que não nos tratou como simples animais. Ela merece o nosso sacrifício. E então com um rápido salto subiu na cama e a fez de palanque para que seus irmão gatos o ouvissem. E começou o discurso: - Se minha senhora não enxerga, então serei seus olhos. Então, Aquiles, um siamês magro, aproximou-se. - Se minha senhora não ouve, então serei seus ouvidos. Zara, uma persa, falou para todos: - Se minha senhora não fala, então serei sua boca. Então Bast atendeu o pedido dos gatos. A mulher negra sumiu sem que notassem, mas eles teriam agradecido a ela por muito tempo. “Estou de volta, meus queridos”, disse a velha senhora, através da boca de Zara. E com os olhos de Ébano, ela viu seus gatos sorrirem. Miados altos que ela voltou a ouvir, através de Aquiles. Zara sorriu por ela. Sua risada era a mesma. Doce e suave. E os gatos festejaram naquela noite.
Escrito por Geraldo de Fraga às 15h25
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Escrito por Geraldo de Fraga às 15h55
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